
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Machado de Assis
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Machado de Assis, marco zero da literatura brasileira! Eterna inspiração. Excerto do conto "A desejada das gentes".
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
palavras vomitadas
Eu não entendo
aqueles jovens
comendo lâmpadas como indigentes
cuspindo pétalas incandescentes
inconscientes pelas calçadas
Eu não entendo
esses rapazes
partindo lâmpadas fluorescentes
sobre as cabeças de tanta gente
inutilmente manifestada
Eu não entendo
as crianças violentas
pervertidas pela raiva
delinquentes,
transviadas
Eu não entendo
as crianças-violeta
coloridas, disfarçadas
caindo estúpidas
na calçada
Eu não entendo
essas almas iridescentes
se desprendendo pelas bocas
de crianças doces
martirizadas
Eu não entendo
essas pilhérias indecentes
de adolescentes que
no espelho
são a mesma imagem
duplicada
****
Hoje de manhã, chegando no trabalho, eu vomitei essas palavras. Agora que as vejo na tela do computador, sujando outro lugar, me sinto melhor. Lembranças da Rosa de Hiroshima. E do Brejo da Cruz.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
O discurso religioso
Tudo isso para dizer que hoje me vi contente ao ler um texto na sessão de debates da Folha de S. Paulo, escrito por Francisco Borba Ribeiro Neto*, abrindo uma discussão sobre a fronteira tênue entre o público e o privado e suas implicações na forma em que a política enxerga a religião. Para mim, o texto mostra que a religião possui um talento natural para trabalhar na interface entre questões da alma e questões políticas, da vida prática, sem precisar envolver preceitos que tenham que ser tomados como verdade. Desta forma, o discurso religioso pode passar distante das discussões polêmicas clássicas que já conhecemos. Segue uma seleção dos trechos que achei mais interessantes para refletirmos:
“[...] Religiosidade e crença são grandes formadores da autoconsciência e dos valores morais – marcando nossas posições no mundo, mesmo quando não seguimos os preceitos das igrejas. Ajudam a construir nossa consciência ética individual e coletiva. Desse modo, entram no debate político – o que implica o compromisso com o bem comum, mas não ‘neutralidade’.
“No debate político, a forte oposição ao fator religioso nasce de sua insistência em declarar que público e privado não podem ser separados, como insiste a ideologia moderna. A dominação em nossa sociedade se baseia na crença de que a pessoa tudo pode na vida privada, desde que conforme à ordem pública e ao bem comum.
“Oculta que nossa privacidade é permanentemente invadida e manipulada pelo mercado, pela propaganda, pelas políticas públicas, etc. [...]
“A religião é justamente o espaço em que as éticas privada e pública se encontram, em que o sentido da vida deixa de ser questão individual para ser trabalhado como construção social.
“Por isso, a lógica religiosa questiona e desafia a organização ideal da política moderna, e a presença das igrejas neste cenário – mesmo quando não são fundamentalistas e ajudam na luta pelo bem comum – incomoda tanto. [...]
“A construção do bem comum exige de ambas as partes [religiosos e laicistas] o esforço de se deixar questionar pela outra. A relação entre público e privado é o pano de fundo, pouco expresso, desse debate.”
Concluo fazendo um apelo aos líderes espirituais para que se reciclem e repensem o papel da religião na sociedade. Precisamos de menos verdades e mais referências boas.
*Coordenador de projetos do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Modelo Vivo




segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Hannah e suas irmãs (1986)
Woody Allen tem esta característica apaixonante: todos seus personagens nos cativam. Por mais que errem sistematicamente, sempre nos tocam de alguma forma. Talvez seja esta a intenção de Allen: mostrar que as pequenezas humanas podem ser um lado muito interessante se observadas com cuidado.
Hannah é a filha brilhante de um casal comum. Talentosa e generosa, vira referência na família ao tornar-se uma atriz bem-sucedida. Tem dois filhos com o ex-marido Mickey, personagem de Woody Allen, e é casada com Elliot. Descontente com a auto-suficiência da esposa, Elliot se descobre apaixonado por Lee, sua cunhada, em uma festa de família. Passa então a procurá-la e em seus encontros lhe fala sobre (e veladamente dedica) livros e poemas. Simultaneamente, Lee se vê emaranhada em um casamento morno com um artista mais velho e rabugento, pelo qual já não se sente mais atraída. Acaba se entregando a um romance secreto com o cunhado, sob a promessa de que em breve o mesmo deixaria Hannah. Porém os meses se passam e Elliot não a deixa. Cada vez mais desconfortável com a traição à irmã, Lee se desvencilha de Elliot, sob o argumento de que a relação entre ele e Hannah não terminara verdadeiramente; ele era mais apaixonado do que realmente sabia.
Com histórico de abuso de cocaína e perfil de ovelha negra da família, Holly procura continuamente um trabalho onde consiga ao mesmo tempo satisfação e reconhecimento. No entanto, depende financeiramente da irmã Hannah para conseguir tocar seus empreendimentos. Hannah, que se mostra humilde com respeito a seus próprios talentos e tenta se desvencilhar do papel de heroína que lhe foi concedido involuntariamente, poda as ambições de Holly inconscientemente. Apesar de sua generosidade e estima, Hannah sempre demonstra descrença nos talentos da outra, desencorajando-a de projetos mais ambiciosos. Não obstante, Holly decide se entregar a um novo desejo: ser escritora de roteiros. Alguns meses mais tarde, Holly e Mickey — diretor de televisão — se encontram casualmente e Holly mostra a ele seus escritos. Mickey se encanta e promete ajudá-la a fazer com que seu roteiro seja produzido.
Em paralelo: Após mais uma suposta crise hipocondríaca, Mickey procura um médico e, pela primeira vez, se encontra na iminência de um diagnóstico sério e desta vez real. Quando, após alguns exames, o médico descarta a possibilidade de qualquer fatalidade, Mickey se vê feliz e sai saltitante do hospital. Em menos de um quarteirão, porém, é subitamente assaltado por uma profunda crise existencial. Como poderia habitar um mundo onde a morte é uma certeza e a vida não faz sentido? Com seu habitual humor, Woody Allen trafega então por seus diálogos internos, abordando questões filosóficas sobre a vida. Mickey busca líderes religiosos – da Igreja Católica, Consciência Krishna... – e promete ser um seguidor fiel. Quem sabe até um dia acreditar em Jesus? Detalhe: Mickey é Judeu.
Nestas três narrativas entrelaçadas, Woody Allen relata abertamente a beleza das transformações humanas. Holly se torna uma escritora famosa, Elliot redescobre seu casamento com Hannah e Mickey afinal relembra o sentido de viver. Aquelas pequenezas logo se percebem como caprichos charmosos dos personagens. Através dos olhos e da sensibilidade deste gênio das relações humanas, uma semente já é uma flor antes mesmo de ser plantada.
“O coração é um músculo muito elástico”, diz Mickey, no final do filme, ao se apaixonar e se casar com Holly – irmã de sua ex-mulher.
Que beleza, Mr. Allen!
Em algum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
teu olhar mais ligeiro facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, em algum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado,
eu e minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas
e. e. cummings
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Uma Rápida Homenagem
— Deus! O que estou fazendo aqui?
Deus, então, responde:
— Olhe ao seu redor.
O homem olha para todos os lados.
— Mas, Senhor, não há nada ao meu redor além de lama!
— Olhe novamente, Vitalino. Com mais cuidado.
O homem torna a observar e medita. Senta no chão cansado. Começa a mexer no barro e a fazer bonecos. E finalmente se enxerga rodeado de infinita matéria-prima de criação.