terça-feira, 24 de abril de 2012

Sacolinhas de Supermercado

Recentemente nós testemunhamos o fim da ditribuição das sacolinhas plásticas nos supermercados em São Paulo. Desde o primeiro momento, eu tive pensamentos controversos sobre esta nova política, pois se por um lado sou viciado em trocar o lixo, e convenhamos que as sacolinhas de supermercado são fantásticas para essa função, por outro, de fato, a quantidade de plástico que se descarta por família por mês é enorme. Vamos então tentar esmiuçar um pouco a situação. Quais são os interesses em questão? Os supermercados de fato tiveram um momento de epifania e decidiram ser "verdes" do nada? Sabemos que isto não funciona exatamente desta forma no nosso querido mundo capitalista. Homens de negócio não dão ponto sem nó. Obviamente foi visada uma redução nos gastos operacionais dos supermercados, mesmo considerando que de fato tenha havido uma motivação altruísta por trás desta parada. Outras duas questões surgem: 1) De quem é a responsabilidade de arcar com o custo do acondicionamento das compras - supermercado ou cliente? 2) O quão "verde" é de fato esta iniciativa?
Pensando sobre a primeira questão: Criou-se uma cultura de que o estabelecimento de comércio é responsável por prover uma forma de acondicionamento das compras, sem custo para o cliente. Isto é (era) verdade não apenas para os supermercados, mas também para outros tipos de comércio: padarias, lojas de roupa, farmácias, livrarias, etc.Então de certa forma, podemos atribuir esta responsabilidade para o estabelecimento comercial. Obviamente, no final das contas, quem paga é o próprio consumidor, pois todos os custos operacionais devem estar embutidos nos preços dos produtos para garantir uma margem de lucro que garanta a sobrevivência do comércio. Desta forma, concluímos que quem pagava pelas sacolas plásticas nos supermercados eram os próprios clientes, e que com o fim do provimento das mesmas, teoricamente deveria haver uma redução nos preços dos produtos. Deconheço que tenha acontecido um movimento neste sentido.
Sobre o segundo ponto: Não quero fazer aqui um tratado sobre ecologia, então vou me limitar à experiência na minha própria casa, e acreditar que esta pode ser extrapolada para outras. Na prática: eu uso menos sacolas plásticas agora que os supermercados não as fornecem mais? Resposta: Não. Não tenho menos lixo hoje do que eu tinha antes. ou seja, o plástico tem que vir de algum lugar, seja de sacolinhas de outros estabelecimentos comerciais, ou mesmo compradas com esta finalidade. Então, na prática, o mundo não está mais limpo com esta atitude dos supermercados - ao menos não no meu universo. Pensando bem, a única atitude que prometia fazer o mundo um lugar mais "limpo" era a subsituição das sacolas de plástico comum por sacolas de plástico biodegradável, e esta iniciativa foi por água abaixo rapidamente, pois, segundo os supermercados, os clientes não estavam dispostos a pagar pelas sacolinhas a que um dia eles tiveram direito. Assim, não ficamos nem de um lado nem de outro: nem temos mais o benefício do acondicionamento das nossas compras, sob o custo de um mundo um pouco mais poluído, nem temos um mundo um pouco mais limpo com sacolas biodegradáveis, sob o custo financeiro na boca do caixa - assim como acontece na Europa.
Desta forma, quem quiser fazer sua parte do ponto de vista ecológico, que busque comprar sacolas biodegradáveis para acondicionar seu lixo (se alguém conhecer uma marca, me avise). Sob o nosso próprio custo, é claro...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Terra de ninguém.

Terra de ninguém.

TERRA DE NINGUÉM!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Eu sabia!

Você já teve vontade de dizer, ou já disse: "Eu sabia!"? Hoje eu vi uma matéria na internet dizendo que o "Memórias póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, é um dos cinco livros prediletos de Woody Allen. No final do ano passado eu postei sobre os dois autores com um intervalo de apenas dois meses. Não fiz relação nenhuma entre eles na minha cabeça nem nos textos, mas pensando bem agora, faz todo sentido, não faz? Woody Allen e Machado de Assis... Eu ousaria dizer que o segundo é ainda mais atemporal, mas uma resposta para isto talvez só esteja clara daqui a cem anos. Isto me faz lembrar que nunca tivemos um autor brasileiro vencedor do Nobel de literatura. Aliás, acho que brasileiro nenhum jamais ganhou Nobel em nenhuma área. Não por não merecer; já ouvi um comentário de que isto nunca aconteceu devido a nossos autores escreverem em língua portuguesa. Ou seja, se tivessem sido escritas em inglês, por exemplo, haveria grandes chances de nossas obras terem angariado este prêmio. Por outro lado, José Saramago ganhou o prêmio recentemente. Mas como traduzir Guimarães Rosa, por exemplo? Como entender Guimarães Rosa sem ser brasileiro, sem conhecer os meandros de nossa cultura, tradições, idiossincrasias? Impossível. Teremos que nos contentar com nosso próprio julgamento, e não aguardar o dos outros. Aliás, tarefa deveras saudável! Falta fé ainda em nossa própria crítica. Para poder dizer em alto e bom som que a música brasileira é a melhor do mundo! Que os melhores discos da Sarah Vaughan foram aqueles dedicados à música brasileira. Que Machado de Assis foi um dos maiores escritores da história, não só brasileira, mas mundial. Que a gastronomia brasileira é das melhores. Que o povo é bonito. Que somos campeões no futebol, no tênis, na natação e até no narcotráfico.
Brasil-sil-sil!

domingo, 20 de março de 2011

Volver a los diecisiete

Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a Dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

Mi paso retrocedido cuando el de ustedes avanza
El arco de las alianzas ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena.

Se va enredando...

Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente de rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.

Se va enredando...

El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros,
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero.

Se va enredando...

De par en par la ventana se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto como una tibia mañana
Al son de su bella diana hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín al cielo le puso aretes
Mis años en diecisiete los convirtió el querubín.


*****

Uma confissão apaixonada e corajosa de Violeta Parra.

http://www.youtube.com/watch?v=QYNx1D74mtQ&feature=related

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Tic, tac...

Tenho escutado por aí – e confesso que também já me peguei falando o mesmo – que estamos sofrendo nos dias de hoje de falta de tempo. Falta tempo para esportes, hobbies, livros, amigos ou mesmo para ficar à toa em casa. Mas o que foi que aconteceu? O que fizeram com o tempo? Nada. O tempo é o mesmo de sempre, apesar de estar provado que, de acordo com a situação, temos a sensação dele passar mais rápido ou mais devagar. Não estamos sofrendo de falta de tempo, mas de facilidade de fazer as coisas. Na era da comunicação, é fácil falar com quem queremos: em segundos mandamos uma mensagem por e-mail, ou alcançamos uma pessoa no celular, onde quer que ela esteja. Então, na verdade, sobra tempo pra fazer o resto! Assim, queremos abraçar o mundo inteiro e fazer tudo. A sensação de falta de tempo é na verdade uma falta de organização e definição de prioridades. O que você quer: Fazer academia? Está fácil; escolha alguns dias da sua semana, escolha uma academia perto de sua casa, e comece. Quer fazer um curso de idiomas? Mesma coisa...Quer namorar? Tire os finais de semana pra fazer isso – apenas isso. Agora, se você sente saudade de não ver o tempo passar, tire horas do seu dia, ou dias do seu final de semana, para não fazer nada. O tempo passa devagar quando fazemos aquilo que gostamos ou se estamos simplesmente contemplando o dia. Mas reclamar de que os dias de hoje estão difíceis, que não temos tempo para nada, é mentira. Os dias de hoje estão fáceis, fáceis demais. Escolha o que é importante para você e você verá a mágica do tempo passar na velocidade certa.

[...]
Odeio os ponteiro que correm se estamos perto

Odeio os ponteiro que param se estamos longe

As horas torturam quem ama

Correndo ou custando a passar

Se o tempo entendesse de amor

Devia parar

(Marino Pinto e Mário Rossi, “Se o Tempo Entendesse”, 1950)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Machado de Assis

"Que é a saudade senão uma ironia do tempo e da fortuna? Veja lá; começo a ficar sentencioso. Trinta anos; mas em verdade, não os parecia. Lembra-se bem que era alta e magra; tinha os olhos como eu então dizia, que pareciam cortados da capa da última noite, mas apesar de noturnos, sem mistérios nem abismos. A voz era brandíssima, um tanto apaulistada, a boca larga, e os dentes, quando ela simplesmente falava, davam-lhe à boca um ar de riso. Ria também, e foram os risos dela, de parceria com os olhos, que me doeram muito durante certo tempo."

*****
Machado de Assis, marco zero da literatura brasileira! Eterna inspiração. Excerto do conto "A desejada das gentes".

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

palavras vomitadas

Almas iridescentes


Eu não entendo
aqueles jovens

comendo lâmpadas como indigentes
cuspindo pétalas incandescentes
inconscientes pelas calçadas

Eu não entendo
esses rapazes

partindo lâmpadas fluorescentes
sobre as cabeças de tanta gente
inutilmente manifestada

Eu não entendo
as crianças violentas
pervertidas pela raiva
delinquentes,
transviadas

Eu não entendo
as crianças-violeta
coloridas, disfarçadas
caindo estúpidas
na calçada

Eu não entendo
essas almas iridescentes
se desprendendo pelas bocas
de crianças doces
martirizadas

Eu não entendo
essas pilhérias indecentes
de adolescentes que
no espelho
são a mesma imagem
duplicada


****
Hoje de manhã, chegando no trabalho, eu vomitei essas palavras. Agora que as vejo na tela do computador, sujando outro lugar, me sinto melhor. Lembranças da Rosa de Hiroshima. E do Brejo da Cruz.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O discurso religioso

Eu me afastei de religiões de uma forma geral em minha vida pela sua escassez de debates que conversassem com meus próprios questionamentos e buscas, e ao mesmo tempo com a problemática e os paradigmas da atualidade. A religião, por ser dogmática, parte do pressuposto de que algumas verdades são imutáveis. Portanto, para aproximar-se dela, é necessário “comprar” um pacote de verdades, que não necessariamente são compatíveis com o conhecimento que acumulamos durante nossas vidas. Pacotes de verdades à parte – pois é possível abstrair ou metaforizar suas mensagens – a religião pode sim desempenhar uma função nobre na sociedade, ao levantar questões éticas e primárias do ser humano enquanto indivíduo e, especialmente, do ser humano enquanto ser social (se é que é possível separar-se completamente uma coisa da outra).
Tudo isso para dizer que hoje me vi contente ao ler um texto na sessão de debates da Folha de S. Paulo, escrito por Francisco Borba Ribeiro Neto*, abrindo uma discussão sobre a fronteira tênue entre o público e o privado e suas implicações na forma em que a política enxerga a religião. Para mim, o texto mostra que a religião possui um talento natural para trabalhar na interface entre questões da alma e questões políticas, da vida prática, sem precisar envolver preceitos que tenham que ser tomados como verdade. Desta forma, o discurso religioso pode passar distante das discussões polêmicas clássicas que já conhecemos. Segue uma seleção dos trechos que achei mais interessantes para refletirmos:

“[...] Religiosidade e crença são grandes formadores da autoconsciência e dos valores morais – marcando nossas posições no mundo, mesmo quando não seguimos os preceitos das igrejas. Ajudam a construir nossa consciência ética individual e coletiva. Desse modo, entram no debate político – o que implica o compromisso com o bem comum, mas não ‘neutralidade’.
“No debate político, a forte oposição ao fator religioso nasce de sua insistência em declarar que público e privado não podem ser separados, como insiste a ideologia moderna. A dominação em nossa sociedade se baseia na crença de que a pessoa tudo pode na vida privada, desde que conforme à ordem pública e ao bem comum.
“Oculta que nossa privacidade é permanentemente invadida e manipulada pelo mercado, pela propaganda, pelas políticas públicas, etc. [...]
“A religião é justamente o espaço em que as éticas privada e pública se encontram, em que o sentido da vida deixa de ser questão individual para ser trabalhado como construção social.
“Por isso, a lógica religiosa questiona e desafia a organização ideal da política moderna, e a presença das igrejas neste cenário – mesmo quando não são fundamentalistas e ajudam na luta pelo bem comum – incomoda tanto. [...]
“A construção do bem comum exige de ambas as partes [religiosos e laicistas] o esforço de se deixar questionar pela outra. A relação entre público e privado é o pano de fundo, pouco expresso, desse debate.”

Concluo fazendo um apelo aos líderes espirituais para que se reciclem e repensem o papel da religião na sociedade. Precisamos de menos verdades e mais referências boas.

*Coordenador de projetos do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Modelo Vivo







Descobri um novo hobby! Vi desenhos da minha irmã de modelos vivos e fiquei com vontade de fazer. Tem no SESC Pompeia duas vezes por mês - eu fui duas vezes com a Carol. Aliás, tenho que agradecê-la pela ajuda com o Photoshop para corrigir os problemas de scanning e para organizar os desenhos em menos documentos (ela é muito safa!) =D



segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Hannah e suas irmãs (1986)

Woody Allen tem esta característica apaixonante: todos seus personagens nos cativam. Por mais que errem sistematicamente, sempre nos tocam de alguma forma. Talvez seja esta a intenção de Allen: mostrar que as pequenezas humanas podem ser um lado muito interessante se observadas com cuidado.

Hannah é a filha brilhante de um casal comum. Talentosa e generosa, vira referência na família ao tornar-se uma atriz bem-sucedida. Tem dois filhos com o ex-marido Mickey, personagem de Woody Allen, e é casada com Elliot. Descontente com a auto-suficiência da esposa, Elliot se descobre apaixonado por Lee, sua cunhada, em uma festa de família. Passa então a procurá-la e em seus encontros lhe fala sobre (e veladamente dedica) livros e poemas. Simultaneamente, Lee se vê emaranhada em um casamento morno com um artista mais velho e rabugento, pelo qual já não se sente mais atraída. Acaba se entregando a um romance secreto com o cunhado, sob a promessa de que em breve o mesmo deixaria Hannah. Porém os meses se passam e Elliot não a deixa. Cada vez mais desconfortável com a traição à irmã, Lee se desvencilha de Elliot, sob o argumento de que a relação entre ele e Hannah não terminara verdadeiramente; ele era mais apaixonado do que realmente sabia.

Com histórico de abuso de cocaína e perfil de ovelha negra da família, Holly procura continuamente um trabalho onde consiga ao mesmo tempo satisfação e reconhecimento. No entanto, depende financeiramente da irmã Hannah para conseguir tocar seus empreendimentos. Hannah, que se mostra humilde com respeito a seus próprios talentos e tenta se desvencilhar do papel de heroína que lhe foi concedido involuntariamente, poda as ambições de Holly inconscientemente. Apesar de sua generosidade e estima, Hannah sempre demonstra descrença nos talentos da outra, desencorajando-a de projetos mais ambiciosos. Não obstante, Holly decide se entregar a um novo desejo: ser escritora de roteiros. Alguns meses mais tarde, Holly e Mickey — diretor de televisão — se encontram casualmente e Holly mostra a ele seus escritos. Mickey se encanta e promete ajudá-la a fazer com que seu roteiro seja produzido.

Em paralelo: Após mais uma suposta crise hipocondríaca, Mickey procura um médico e, pela primeira vez, se encontra na iminência de um diagnóstico sério e desta vez real. Quando, após alguns exames, o médico descarta a possibilidade de qualquer fatalidade, Mickey se vê feliz e sai saltitante do hospital. Em menos de um quarteirão, porém, é subitamente assaltado por uma profunda crise existencial. Como poderia habitar um mundo onde a morte é uma certeza e a vida não faz sentido? Com seu habitual humor, Woody Allen trafega então por seus diálogos internos, abordando questões filosóficas sobre a vida. Mickey busca líderes religiosos – da Igreja Católica, Consciência Krishna... – e promete ser um seguidor fiel. Quem sabe até um dia acreditar em Jesus? Detalhe: Mickey é Judeu.

Nestas três narrativas entrelaçadas, Woody Allen relata abertamente a beleza das transformações humanas. Holly se torna uma escritora famosa, Elliot redescobre seu casamento com Hannah e Mickey afinal relembra o sentido de viver. Aquelas pequenezas logo se percebem como caprichos charmosos dos personagens. Através dos olhos e da sensibilidade deste gênio das relações humanas, uma semente já é uma flor antes mesmo de ser plantada.

“O coração é um músculo muito elástico”, diz Mickey, no final do filme, ao se apaixonar e se casar com Holly – irmã de sua ex-mulher.

Que beleza, Mr. Allen!


Em algum lugar em que eu nunca estive, alegremente além

de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:

no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,

ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto


teu olhar mais ligeiro facilmente me descerra

embora eu tenha me fechado como dedos, em algum lugar

me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre

(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa


ou se quiseres me ver fechado,

eu e minha vida nos fecharemos belamente, de repente,

assim como o coração desta flor imagina

a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;


nada que eu possa perceber neste universo iguala

o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura

compele-me com a cor de seus continentes,

restituindo a morte e o sempre cada vez que respira


(não sei dizer o que há em ti que fecha

e abre; só uma parte de mim compreende que a

voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)

ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

e. e. cummings

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Uma Rápida Homenagem

Um homem se vê no meio de um oceano de barro, coberto até os tornozelos. Olha a seu redor e não enxerga nada além do barro, até o horizonte. Encara o céu e desafia:
— Deus! O que estou fazendo aqui?
Deus, então, responde:
— Olhe ao seu redor.
O homem olha para todos os lados.
— Mas, Senhor, não há nada ao meu redor além de lama!
— Olhe novamente, Vitalino. Com mais cuidado.
O homem torna a observar e medita. Senta no chão cansado. Começa a mexer no barro e a fazer bonecos. E finalmente se enxerga rodeado de infinita matéria-prima de criação.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Brasil, meu Brasil brasileiro

A corrupção é um comportamento humano. Em um país bem estruturado – assim como acontece (ou deveria acontecer) em uma empresa privada – as instituições precisam ser sólidas o suficiente para desconfiar da idoneidade humana e praticar alguma forma de punição cada vez que seja identificado um desvio de comportamento; mais especificamente, uma atitude em prol do indivíduo, mas em detrimento da coletividade. No Brasil, vemos continuamente inúmeros exemplos destes desvios de comportamento, que pululam nos jornais de forma suspeita em vésperas de eleições. E passam impunes em plena luz do dia, sob o olhar distraído (ou indiferente) de milhões de brasileiros.

A punição deve ser implacável, mas deve-se ser indiferente às intenções do punido. Julgar o caráter do delinquente é uma mania inútil. Todos somos delinquentes em potencial e a negação deste fato só corrobora o sentimento de culpa – o "pecado inicial", do qual não nos veremos livres jamais – que assola o imaginário brasileiro. Quiçá quebrando este paradigma estaremos preparados para conviver de forma mais harmoniosa e verdadeira.

"O Brasil não existe" – constatou inteligentemente Artur Nestrovski, jornalista, músico, e atual diretor artístico da OSESP. O país exaltado nos lindos sambas de Ary Barroso é uma promessa não cumprida. Um adolescente sambando e sorrindo em imensa ignorância.

Que tal tentar cumprir esta promessa?

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Garoto de Aluguel

Zé Ramalho

Baby,
Dê-me seu dinheiro
Que eu quero viver
Dê-me seu relógio
Que eu quero saber
Quanto tempo falta
Para lhe esquecer
Quanto vale um homem
Para amar você

Minha profissão
É suja e vulgar
Quero um pagamento
Para me deitar
E junto com você
Estrangular meu riso
Dê-me seu amor
Que dele não preciso

Nossa relação
Acaba-se assim
Como um caramelo
Que chegasse ao fim
Na boca vermelha
De uma dama louca
Pague meu dinheiro
E vista sua roupa

Deixe a porta aberta
Quando for saindo
Você vai chorando
E eu fico sorrindo
Conte pras amigas
Que tudo foi mal
Nada me preocupa
De um marginal

sábado, 4 de setembro de 2010

Revirando o Baú (I)

Cinco Léguas



Andei,

andei sem rumo.

Caminhei —

caminhei entre um espaço

de cinco segundos,

cinco léguas,

cinco dias.



Meus passos suplicavam pela dianteira

e se adiantavam.

Virei à esquerda

(e continuei virando,

num espaço de cinco palmos)

E vi, então, o telefone

de vários ângulos,

de vários olhos.


Liguei.

O telefone berrou ao meu ouvido

contando-me que ninguém estava

(isso ele me contou

em um espaço de um quilômetro)


Sentei no chão,

e guardei em minha pasta arquivos:

documentos, boletos, pagamentos, depósitos, impostos...


Saí com meus pés.


Andei,

andei sem rumo.

O horizonte sussurrou aos meus olhos:

Um Sol lilás, um dia verde...


Um dia,

uma légua,

um passo,

um palmo,

um segundo...

(todos guardados em meu bolso)


***
Esses dias resolvi mexer em cadernos antigos e encontrei algumas coisas que achei bem legais. Este poema escrevi em abril de 1998, com 14 anos! Agoro me arrependo de ter simplesmente parado de escrever e desenhar com esta idade. Mas, como diz aquele provérbio, nunca é tarde pra recomeçar.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

No Acre, again!

Qual é o problema comigo? É a terceira vez que venho pra Rio Branco e só ontem fui ter a iluminada ideia de comer peixe por aqui. Agora, obviamente, não me perdoo por ter insistido tanto em vaca e frango em plena Amazônia. Ainda mais sendo minha família inteira amazônica.

Na última vez em que estive aqui, postei no blog alguns pensamentos sobre o ambiente geopolítico da região, e lembrei que João Donato é acreano. Desta vez, a trilha sonora da viagem é Joni Mitchel, e meu livro de cabeceira é a biografia do Tim Maia. Acho que por isso estou me sentindo um pouco americanizado.

Mesmo me sentindo assim, cosmopolita, cabeça-aberta, English speaker, viajado e viajante, cada vez mais percebo que é nas cidades pequenas que me sinto mais à vontade. Não nasci na cidade de São Paulo, sou do interior do Estado. E parece que interior é mesmo a minha palavra. Pense em Clarice Lispector: interior ou exterior? Apesar de ter lido apenas um livro de Clarisse, me sinto lispectoriano. Um menino do interior.

Acabo de ser descoberto aqui no hotel. Liguei no restaurante para pedir minha sobremesa (a mesma que comi nos últimos dois dias, neste mesmíssimo quarto), mas a moça insistia: “Nunca servimos sorvete no hotel, senhora”. Fiquei duplamente perplexo. Eu respondi em entonação grave: “Senhor. Eu tomei um sorvete de maracujá ontem e um de chocolate anteontem”. E ela repetia: “Não temos sorvete, senhora. Só temos mousse”. E assim o diálogo se repetiu algumas vezes, até que desisti e pedi que viesse a mousse mesmo. Desliguei o telefone me dobrando de rir e ainda sem entender nada. Ela bateu na porta do quarto e me entregou a sobremesa, dizendo “Viu? É mousse!” e saiu rindo também. Como podia essa pessoa saber tanto de mim?

Mistérios à parte, peço licença pra saborear minha moqueca de filhote. Ou “muqueca”, como veio na nota que assinei. E depois, minha mousse de limão!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Museu Afro Brasil


Fui ao Museu Afro Brasil esse final de semana e desenhei uma carranca (ou máscara?) africana linda!
Foi bem divertido brincar de texturas.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010


Arte by Julia Bax!!! =D

domingo, 25 de julho de 2010

Uma morte em três parágrafos

Fiquei surpreso ao chegar em casa um dia desses, meio bêbado, e descobrir que alguma coisa em mim queria morrer. Fui fechar a janela do quarto e esse cara bêbado ficou com vontade de me debruçar na janela pra saltar. Eu falei pra ele: “Você tá louco? Quer se matar, vai sozinho, pode ir. Eu fico.” Fechei a janela, a cortina, e deitei na cama inconformado. Dormi, passou a embriaguez, e o bêbado dormiu também.

Ele acordou outros dias, sóbrio. Eu, sóbrio também, não dava ouvidos. Me fazia de bobo, de surdo. Ele não podia ver uma janelinha, que já vinha me sussurrar, me pedir ao pé do ouvido... Se batia um ventinho bom então, eu quase me deixava seduzir.

Pensei e repensei, conversei com amigos, varei dias matutando sobre aquilo. E cheguei finalmente à conclusão de que tinha que deixá-lo ir. Porque estava velho, não tinha mais o que fazer por aqui. Achei justo. Abri a janela e o empurrei pra fora. Acredita que o safado não caiu? Ele voou!